Leitura espontânea: fonte de prazer 

Edna Freitas

O percurso da leitura

        O ato de ler deve ser antes de tudo, prazeroso, principalmente ao jovem que é constantemente seduzido pelas diversas formas contemporâneas de diversão (máscara1 3382). 

A leitura tem sua história de encantos e desencantos. É desse entrelaçamento de emoções que surge o prazer. Cada leitor, conforme sua experiência realmente vivida e sentida, percebe o que ela é, a forma como acontece e evidencia seu poder de transformação. Inserido em seu contexto social, o recebedor externa o prazer da leitura tendo em vista seu conhecimento de mundo.

O caminho escolhido para esta comunicação é o da leitura como fonte de prazer. Foram utilizadas duas abordagens: a produção de textos de candidatos de um concurso público de nível superior e o relato de experiência vivenciado com crianças do Projeto Roedores de Livros. Nos dois caminhos fica demonstrado que o prazer da leitura, experimentado na infância, acaba por estabelecer um vínculo embrionário entre a criança de hoje e o adulto de amanhã. Dessa forma, torna-se instrumento capaz de lhe proporcionar uma existência mais feliz, na qual os caminhos serão trilhados com mais segurança e senso crítico acentuado no sentido de melhor superar os obstáculos integrantes da vida.  

        O hábito de ler começa com o incentivo da família. São os pais que iniciam os filhos ao prazer de ler, lendo para eles. Ouvindo estórias as crianças aprendem a gostar dos livros e percebem como a leitura pode ser divertida (máscara 1210). 

Esse “prazer de ler” é descoberto na magia do ato de ouvir contar. Em O prazer do texto (1974), o crítico francês Roland Barthes fala que o ato de contar e ouvir histórias é uma espécie de jogo de sedução. A cadência de sons, gestos e expressões corporais, buscam o momento certo de laçar, “engatar” o leitor-criança. Nesse jogo, tudo pode acontecer. E o objetivo maior é descobrir “onde” tocar na criança e proporcionar-lhe o prazer. É por esse caminho de ouvir histórias que passa a formação de um leitor.

        Com a leitura nossas vidas ficam mais leves, nossos problemas parecem menores e nossa curiosidade fica mais aguçada (máscara 0919).

E quando consegue atingir o prazer de ler, defendido por Roland Barthes, o leitor estabelece uma parceria entre o texto e ele. Acabam por descobrir sentimentos comuns. E a busca por mais leituras e novas descobertas continua sem que haja vontade de parar.

        É através da leitura que nos informamos, aprendemos a nos comunicar e a viajar pelos mais diversos mundos (máscara 0310). 

Na obra O que é leitura (1994) a autora, Maria Helena Martins, chama a atenção para as mais variadas representações de leituras, além dos limites de tão somente decifrar letras. Um olhar, um gesto, uma imagem refletida são mostras de como o cotidiano é revelado de forma única através da sensibilidade de cada leitor. Começa-se a ler tão logo se chega a esse mundo. O choro, na hora do nascimento, é a leitura de apresentação. A partir daí, tal qual em um filme, as imagens vão aparecendo e de forma natural, instintiva, o mundo começa a ser lido, revelado.

        Quando uma pessoa descobre o prazer que a leitura pode propiciar, ela jamais esquece e continuará mantendo o hábito da leitura pelo resto de sua vida. Mesmo que a vida se torne cada vez mais atribulada, e o tempo cada vez mais escasso (máscara 3513).

O desejável é que esse prazer pela leitura aconteça logo na infância. E pode acontecer somente na fase adulta. No entanto, uma vez instaurado, abre-se um novo caminho na vida desse leitor. O prazeroso desse mundo que se revela é a sensação de se sentir transformado a cada olhar, a cada leitura. E, concomitante, ser um agente transformador. Essa visão diferente do mundo proporciona todo um processo de metamorfose. E conforme sentencia Daniel Pennac, em Como um romance

        Ninguém se cura dessa metamorfose. Não se retorna ileso de uma viagem dessas. A toda leitura preside, mesmo que seja inibido, o prazer de ler; e, por sua natureza mesma – essa fruição de alquimista -, o prazer de ler não teme imagem, mesmo televisual e mesmo sob a forma de avalanches cotidianas (Pennac, 1993:43).

Metamorfose - um caminho sem volta

Nos textos selecionados, vê-se que o leitor cresceu e se manteve consciente da importância da leitura, do grau de esclarecimento que ela desperta. São afirmações de adultos que, ao longo da vida, construíram seu alicerce de valores e se mantiveram conscientes de que a leitura faz parte dessa estrutura. As facilidades tecnológicas somente contribuíram para a solidez do pensamento de que a leitura é fator de transformação, de abertura de novos caminhos, fonte de revelação. São depoimentos de mundos particulares diversos e, no entanto, têm na leitura um espaço comum. E nesse espaço

        Uma vez instalada a magia da leitura, cada jovem, por si só, buscará novos conhecimentos. Se um tema lhe parecer desagradável, ele rejeitará a obra completa, mas buscará, certamente, caminhos alternativos formadores (máscara 0794).

Percebe-se um adulto preocupado em multiplicar, em manter esse recurso do prazer no jovem leitor. Esse adulto já percorreu uma longa estrada e conhece esse caminho, essa trilha. Portanto, é testemunho capacitado de agente transformado e transformador. Encontra-se em condições de despertar a curiosidade da criança sobre o livro, de tal sorte que a leitura seja a conseqüência natural, óbvia e desejada.

        Sendo assim, o hábito da leitura deve ser transmitido às crianças pelos pais, que certamente são as pessoas capazes de influenciar com amor a cabeça das novas gerações. No simples ato de ler estórias infantis e puxar pela imaginação de uma criança, um adulto, amante da leitura ou não, estará criando um vínculo de ternura com esta maravilhosa arte, a literatura (máscara 1022).

Uma experiência de leitura prazerosa

        É muito importante que a atividade da leitura possa ser vista como uma grande diversão capaz de desenvolver a mente e produzir pessoas mais esclarecidas (máscara 1280). 

Desde 2006, o projeto Roedores de Livros desperta o gosto pela leitura através de ações integradas, tais como: mediação de leitura, oficinas de artes e música ao vivo. Idealizado pela professora Ana Paula Bernardes, suas atividades acontecem aos sábados, em Ceilândia, cidade situada a 24 km de Brasília, capital do Brasil. Logo no início, as crianças começaram tímidas. Alegravam-se com as histórias, participavam com suas perguntas, mas sempre tímidas. Após alguns meses de trabalho, percebeu-se uma grande mudança. As crianças mostraram a verdadeira função de suas asas diante de um livro: voar. Sim, agora, elas voam, querem o comando do vôo para, enfim, ler. Não somente ouvir. Querem voar através da leitura. E voam. Alto, bem alto.

Desde o princípio, o livro foi apresentado das mais variadas formas no sentido de promover o gosto, o encantamento pela leitura entre essas crianças carentes de emoções prazerosas, emoções essas que, sabe-se, uma leitura pode proporcionar. Hoje, a alegria é real. Nessas crianças, a leitura é fonte de prazer.

        As crianças devem ver um livro com os mesmos olhos que vêm um brinquedo e os adolescentes devem gostar da leitura tanto quanto gostam de uma festa (máscara 0392). 

No empréstimo de livros também aconteceram mudanças. Antes, era possível emprestar somente um livro a cada criança. Hoje, um livro é pouco. Elas querem levar dois. Fazem questão: “tia, um livro é pouco para uma semana”, dizem.

No dia do indio, dia 19 de abril, fez-se uma grande roda e foram contadas belas histórias indígenas, inclusive a história de um índio escritor e contador de histórias. O fato da sala reservada ao projeto ser pequena, para acolher todas as crianças, tem contribuído de forma positiva para a exploração de algumas das maravilhas da natureza: o céu, o sol, o ar fresco, a sombra das árvores, a terra. Além dessas maravilhas, há um espaço seguro para as crianças e um gostoso parque com os brinquedos de que elas tanto gostam. O dia do índio não poderia ter comemoração melhor: ao ar livre, sob o céu e sob as árvores. Uma mãe “índia”, sem a menor cerimônia, oferece o peito a sua cria. Enquanto ouve as histórias, a criança mama, deliciosamente. Ao lado, Thiago, uma criança de 7 anos, imita o canto do pica-pau.

        O importante é desenvolver o hábito da leitura associado ao prazer e ao desenvolvimento pessoal que o mesmo proporciona, pois, uma vez adquirido tal hábito, a tendência é o indivíduo buscar obras cada vez mais desafiadoras (máscara 3164).

Começa a contação de histórias. Muitas crianças se aproximam e fazem uma roda. Jardson, uma das crianças, fica curioso com o que pode encontrar no baú de livros da contadora de histórias. E por isso, não sai de perto dele. Vez por outra arrisca e olha o que pode haver lá dentro.

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O momento do lanche é outro ponto alto do projeto. Ele é esperado com ansiedade. As crianças perguntam, logo no início, o que será o lanche. É outro momento de confraternização. Outras leituras acontecem.
 

Enfim, a leitura ser-vida feito água de beber

        Há de se compreender que o interesse pela leitura pode ser despertado com uma aproximação mais atraente por parte dos pais e educadores. Ao sugerir um livro, deve-se levar em consideração não somente a importância literária de uma obra, mas a identificação do jovem com o tema e a realidade em que ele vive (máscara 2406). 

O poeta francês, Georges Perros, conforme relatado em Como um romance (1995), por Daniel Pennac, soube compreender e partilhar com seus alunos o prazer de ler. Em sala de aula, ele fez o caminho de volta. Buscou recuperar aquela criança que, atentamente, ouvia as histórias contadas por seus pais. E Perros pôs-se a ler, pelo simples prazer de ler. Ofereceu leitura e prazer a uma classe que, equivocadamente, pensava haver perdido o encanto das histórias contadas. Ele conseguiu restabelecer o contato do leitor-adulto com o leitor- criança que sempre existiu. E no jogo de sedução de Roland Barthes, o educador Perros, conseguiu “engatar” o prazer adormecido. Dessa forma, os adultos, candidatos participantes de um concurso público e as crianças do projeto Roedores de Livros, todos, igualmente, sentem o prazer. O prazer de ler. A eles, a leitura foi ser-vida feito água de beber. 
 
 
 
 
 
 

Referências Bibliográficas 

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 18ª. edição, São Paulo, editora Brasiliense, 1994

PENNAC, Daniel. Como um romance; tradução de Leny Werneck. 2ª. edição, Rio de Janeiro, RJ, Rocco, 1993.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Edições 70, Lisboa, 1974.

VIEIRA, Alice. O prazer do texto: perspectivas para o ensino de literatura. São Paulo, EPU, 1989.

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil:gostosuras e bobices. 5ª. Edição, São Paulo, Scipione, 1997.

BRENMAN, Ilan. Através da vidraça da escola: formando novos leitores. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2005.  
 
 

 


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