A Leitura da Literatura, as Práticas Sociais e o Suporte Virtual

Hilda Orquídea Hartmann Lontra

 

Abstract: This article aims at discussing questions on reading, reader, text, and hypertextuality which are embedded in social and pedagogical practics, considering the influences of virtual supports and navigation problems.

Keywords: reader; hypertext; reading; literature.

 

A leitura - principal constituinte do pensamento crítico, supõe um leitor. Este deve ser capaz de estabelecer relações entre o mundo e as práticas sociais, evidenciando o entendimento das intenções comunicativas subjacentes a qualquer discurso, em dado contexto.

Na virada do século XX para o Terceiro Milênio, no mundo ocidental dito globalizado, novas modalidades de leitura e, conseqüentemente, de escrita surgiram, cresceram e se expandiram, alterando algumas práticas sociais, entre elas a prática pedagógica. Trata-se da comunicação interpessoal intermediada por textos veiculados em suportes virtuais, principalmente a Internet.

Inquestionavelmente, valores, conceitos e comportamentos tiveram de ser revistos. Repensar, procurando entender, as implicações da utilização dos recursos derivados das tecnologias de informação e comunicação (TIC) no processo de ensino-aprendizagem, mais especificamente, na leitura da literatura é o objetivo central deste trabalho.

Dialogicamente relacionados, a leitura, uma atividade variável constituída por um conjunto de práticas e de condições, pressupõe o leitor e, talvez paradoxalmente, a formação do leitor depende da multiplicidade de leituras realizadas.

Na prática social acadêmica, espera-se de quem discorre criticamente acerca de um tema, no caso a leitura e suas imbricações com as práticas sociais, entre elas a prática pedagógica, uma clara apresentação dos limites e das concepções que fundamentam a exposição e uma explicitação dos embasamentos teórico-filosóficos subjacentes. Um texto com início, meio e fim, um circuito fechado.

Todavia, essa estrutura discursiva não está presente neste hipertexto [Devido ao fato de que este texto resulta da exposição apresentada no II Encontro Nacional do GELCO (Goiânia, 8 de outubro de 2003), na mesa ?Leitura e literatura?, sua estrutura guarda as marcas dadas ao tema: blocos livres de afirmações polifônicas, desconectadas e sem uma ordem prefixada para a leitura, passível de focalização múltipla. É um desafio à participação do leitor na busca das relações entre as partes.], constituído de índice, links, os suportes usados e referências.

Para Chartier, a leitura não é um comportamento invariante, naturalmente antropomórfico, sem historicidade: ?Vários modelos governaram suas [do leitor] práticas, várias revoluções da leitura modificaram os seus gestos e seus hábitos? (Chartier, 1997:31). Os homens não leram sempre do mesmo modo. Tal variação é condicionada por fatores de ordem individual e social. O ato individual da leitura é dependente do conjunto de fatores que constituem as situações de leitura, os propósitos e as expectativas dos leitores, os tipos de textos lidos e as competências e habilidades exigidas.

Olson (1997) mostra que ler foi sempre considerado um verbo transitivo. Quando dizemos que alguém sabe ou não sabe ler, acrescentamos: ler algo. O que o leitor vê no texto depende do seu propósito e de sua competência. O propósito diz respeito ao ?para que? da leitura, a competência ao ?com quê?. Um amplo horizonte de experiências faculta ao leitor competente excluir até alguns dos sentidos autorizados do próprio texto.

Agora, ao abrir do século XXI, surgem novas questões atinentes à leitura: é possível entender o ato de ler como era percebido há 50 anos, dada a infinidade potencial dos usuários de um único texto? É possível aplicar ao leitor de textos virtuais as mesmas teorias acerca da palavra impressa, da mesma forma como se faz(ia) há algum tempo? Conhecer o estatuto do leitor é relevante? Mais: auxilia a compreensão das páginas vinculadas às tecnologias atuais?

Com referência à Internet, principalmente quando se pensa no sistema de banda larga, com ?velocidade de ponta?, ADSL, no Brasil a tecnologia ainda é rudimentar e de alto custo, inviabilizando o acesso da minoria da população que possui um computador pessoal. Há ainda um fator de natureza econômica: o tempo de leitura é medido em impulsos de ligações telefônicas, e as horas concedidas pelos provedores têm custo alto. A leitura na Internet é muitas vezes congestionada e de difícil acesso, o que a torna, de certo modo, menos eficiente e superficial. Buscando a perenidade dos textos, a tendência é desenvolver outras formas de registro, como salvar os dados em arquivos pessoais ou imprimir páginas do sítio consultado.

Abordando a questão pelo foco do ensino superior, de letras, ainda há alguns estudantes não têm acesso a TICs nem o hábito de consulta a suportes virtuais. Constata-se que o número de usuários decresce nos níveis mais baixos de escolaridade e agiganta-se quanto menor for o poder aquisitivo. Assim, falar em leitura como prática social em suportes virtuais, com referência à população estudantil brasileira, é considerar uma clientela estatisticamente tão pequena, que se poderia pensar em leitor: uma ?realidade virtual?. No entanto, é necessário que observemos a leitura em suportes virtuais, no Brasil, considerando tal minoria privilegiadíssima, cujo comportamento pode estar influenciando futuras gerações.

Qualquer que seja a fundamentação teórica escolhida, um aspecto é recorrente: o leitor e a leitura são condicionados por fatores sociais. Umberto Eco (1994) considera dois tipos de leitores: o empírico e o modelo. Aquele é o indivíduo que abre o livro e folheia; sob seus olhos, o livro realiza-se texto. O modelo é o idealizado pelo autor, no momento da criação.

Roland Barthes [BARTHES, Roland (1980). S/Z. Lisboa: Edições 70.] assim como Wolfgang Iser [ISER, Wolfgang (1987) O ato da leitura. São Paulo: Editora 34.], estabelecendo uma ruptura com as teorias vigentes, destacam a relação do leitor com o texto: ligam a leitura com o prazer do texto (Barthes) e com o efeito da obra (Iser). Iser postula a estética do efeito, segundo a qual, o trabalho de recepção decorre da prévia constituição poética do texto, um objeto de linguagem, mediando um processo de comunicação. Iser destaca que a leitura requer do leitor atividades imaginativas e perceptivas, a fim de obrigá-lo a diferenciar condutas e a mudar suas atitudes. As questões da recepção e do efeito estéticos costumam ser analisadas partindo da relação dialética entre texto, leitor e um terceiro elemento, o proveniente dessa interação. Mas será que tais reflexões se sustentam na leitura de suportes virtuais?

Outros estudiosos despenderam esforços na busca de uma identidade maior entre texto, leitura e leitor. Um deles foi Mikhail Bakhtin [BAKHTIN, M (1981) Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec; e (1997). Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes.] que percebeu que o leitor não apenas constrói os sentidos da leitura, mas é construído por esses sentidos. O leitor, ao percorrer um texto, aciona inúmeros outros textos que compõem o seu acervo e promove uma inter-relação entre eles, construindo sentidos. Esses sentidos podem variar de leitor para leitor porque os acervos constituintes dessa polifonia discursiva são diferentes.

Essa relação texto-leitura-leitor-texto vai, de certa forma, aumentar o acervo polifônico do leitor e prepará-lo para interagir com outros textos, num processo espiral de construção de sentidos. Ler, portanto, é acionar dispositivos psicossociais para construir sentidos e se construir sujeito enquanto leitor-texto. Assim, a amplitude do ato de ler vai depender da proficiência do leitor. É difícil aferir tais comportamentos perante uma pluralidade de leitores.

De acordo com CHARTIER (1998), a leitura em tela de computador apresenta características parecidas com as da Antigüidade, em que o leitor lia um texto em um rolo ou volumen [Mas há fatores que distinguem a leitura na tela em comparação com a que se realizava por meio do rolo: ?ao ler numa tela, o leitor de hoje encontra novamente algo da postura do leitor da Antigüidade que lia um volumen, um rolo. Mas a diferença não é pequena; com o computador, o texto se desenrola verticalmente e é dotado de todas as referências próprias do codex: paginação, índice, tabela, etc.? (Chartier & Cavallo, 1998: 30).]. Mas a diferença é grande, pois, estrutural, decorre de aspectos sociais implicados.

O conceito de leitor sofreu muitas mudanças no decorrer do tempo, as quais foram sempre acompanhadas pelas transformações históricas influenciadoras no processo de leitura.

O leitor passou a ser um fator determinante no sistema literário a partir dos estudos de sociologia da leitura, cujos teóricos a entenderam como uma atividade que extravasava seus próprios limites. Para Sartre [Para Sartre, ao leitor cabe o deciframento das intenções subjacentes ao texto. A interação entre texto e leitor ocorre na medida em que o recebedor entende a intenção do autor, o que ?o autor quis dizer?, apud Lévy, 2000], leitor era o recebedor, o alvo das intenções políticas do autor. No início do século passado, Schücking (1947) já percebia ?o leitor como um ser ativo que interferia no processo de produção do texto? [SCHÜCKING, L. L (1947). obra em alemão, traduzida eletronicamente pela ?google?.]. Essa concepção fecundou os estudos acerca das preferências das classes populares, derrubando preconceitos quanto a fronteiras e papéis existentes. Mas o leitor passou a ser, com os avanços dos estudos de sociologia da literatura, um agente transgressor de limites de construção de sentidos.

Wolfgang Iser (1996) apresentou a idéia de que o autor, na arquitetura do texto, prevê um interlocutor, dialoga com esse acompanhante que, situado entre armadilhas (negações) e os silêncios (lacunas do texto), só no percurso de preenchimento dos vazios para a concretização da leitura, institui-se leitor.

Dessa interação nasceu a noção de ?sujeito-leitor?, uma individualidade inserida no processo histórico de construção de sentidos, interpretando as suas relações com o mundo e, por vezes, recriando-as. O leitor produz linguagem e é produzido por ela, tornando-se produto de sentidos e às vezes transgressor em sentidos ideologicamente cristalizados. Nessa perspectiva, ler não é descobrir um único sentido, ?o que o autor quis dizer?, mas saber que o sentido descoberto no processo da leitura poderia ter sido outro.

Na modernidade, leitor é o autor do texto lido, num processo de constante construção de sentidos; parte da autoridade e do poder do autor são transferidos para o leitor e o sentido passa a ser construído num jogo de relações entre diferentes autores. Mas, quando o texto passa a ser essa conexão de vários textos, o autor/leitor passa a ser um montador, e a produção ganha um caráter colaborativo: muitos autores, vários leitores; um time virtual.

A re-significação dos papéis faz com que o texto se torne menos independente, mais vulnerável aos comentários, ficando obscuras as fronteiras do texto individual. Desta forma, o desafio de se analisar os hipertextos reside no fato de que o texto não pode mais ser visto isoladamente. Cumpre ver o (hiper)texto a partir do efeito que produz no leitor, como um ente de natureza dinâmica, cujo significado se altera em cada leitura.

Sob qualquer prisma teórico, o ato de ler [A leitura resulta - sob uma perspectiva sócio-histórica - tanto dos condicionamentos que regulam as diferentes comunidades de leitores quanto dos condicionamentos de ordem material e textual. Em síntese: a leitura é uma atividade variável. É constituída por um conjunto de práticas e de condições de ordem individual e social.] é resultante das tensões que se estabelecem entre dois grandes conjuntos de fatores: os relacionados aos leitores [Ao se usar o plural entende-se por leitores às comunidades de interpretação nas quais eles estão inseridos.] e os relacionados aos textos e a sua materialidade. Já falamos sobre o leitor, o elemento humano no quadro das possibilidades de leitura geradas por fatores de ordem técnica e material. Cumpre destacar que o meio eletrônico provoca recepções controversas [Em 1957, Richard Hoggart publicou um estudo sobre a expansão do letramento entre as camadas populares interferindo no mercado editorial.

Clássicos não eram muito aceitos por pessoas que optavam uma literatura mais econômica e descartável, abrindo novas perspectivas de produção. Pensa-se que a apropriação dos suportes virtuais na prática de leitura da literatura trouxe vantagens um público mais jovem, renitente ao contato com volumes pesados e densos, que resgatavam o ?passado?. ].

Seguem-se dois depoimentos.

A leitura de uma enciclopédia clássica [em suporte de papel] já é de tipo hipertextual, uma vez que utiliza as ferramentas de orientação que são os dicionários, léxicos, índices, thesaurus, atlas, quadros de sinais, sumários e remissões ao final dos artigos. No entanto, o suporte digital apresenta uma diferença considerável em relação aos hipertextos anteriores à informática: a pesquisa nos índices, o uso dos instrumentos de orientação, de passagem de um nó ao outro, fazem-se nele com grande rapidez. Por outro lado, a digitalização permite associar na mesma mídia e mixar finamente os sons, as imagens animadas e os textos (Lévy, 1994).

A rapidez é destacada como uma grande vantagem da consulta aos meios eletrônicos. Dependendo do horizonte de experiências do leitor, o fato de as páginas do livro serem folheadas num contato corporal (no colo, no manuseio com os dedos) pode ser um fator favorável à leitura ou algo que provoca rejeição; já o leitor da tela, na utilização do suporte virtual, apresenta um certo distanciamento a partir do momento em que ele necessita de outros elementos como a tela, o mouse ou teclado para que a tela se configure numa página digital.

A posição nos espaços circunscritos de leitores em computadores é incômoda, e o tempo dedicado à leitura é menor, dizem alguns especialistas, pelo fator físico, pelos ergométricos. No entanto, o caráter de novidade e a sensação de estar in no uso dos meios virtuais e no domínio das TIC leva à superação dos limites físicos por parte da juventude atual.

Um texto retirado de e-mail entre dois jovens acerca de a pressão familiar para com a leitura mostra que a prática social da leitura foi fortalecida com o suporte virtual das TIC:

Oi, Renato,

Minha mãe vive me perguntando pq q eu n curto ler livros e coisas de escola...po, acho q tu ta ligado pq q n neh? tipo, eh mo defasado ficar lendo esses livros, so muito mais ficar lendo e escrevendo e-mails, chats e etc....Mirc, ICQ, Messenger e essas coisas o u que há! Eh massa marcar de encontrar com a galera e ate quem sabe namorar pelo pc....Boto fé que esses livros didáticos so sabem encher lingüiça, enquanto é mais fácil so ler um resumo e fica com tempo livre pra faze u q agente quiser! Qtas namoradas agente não arruma pela net neh.... e amigos, ixi! Mensagens de e-mails e de chats são dinamicas, e akeles livros de historia....geografia.....com textos longos e cansativos....Essa era de Internet eh muito cabulosa! to indu nessa...Pq q pais n entendem agente neh? falow [Gabriel Lontra, estudante, 19 anos, vestibulando, e-mail enviado para um amigo.]

É inconteste que estudante usuário da Internet, para fazer pesquisas escolares muitas vezes recorta, cola, intervém, modifica, reescreve o texto; subverte a noção de autoria textual. Na versão impressa, o leitor escreve ao lado dos parágrafos lidos, sublinha, destaca, aponta com setas as passagens que vão subsidiar o texto pessoal, posteriormente redigido. Ao fazer download, altera-se o sentido de ?propriedade?. Essas novas relações entre o leitor e o texto também geram uma mudança no processo criativo.

Morre o autor como concebido pela cultura do livro impresso para dar lugar ao bricoleur. Dá-se uma diminuição da presença do indivíduo, face ao aumento dos aspectos tecnológicos empregados na construção do texto, dependente de conexões físicas e lógicas entre máquinas. Mas uma experiência de acompanhamento de resgate de textos pela Internet revela que os alunos ainda continuam preferindo o xerox para aulas. [Em 2002, na UnB, os textos para leitura por alunos de graduação foram disponibilizados em http://ler.literaturas.pro.br e os destinados para estudantes de pós-graduação em http://letras.literaturas.org, domínios construídos para tal finalidade. Nesse nosso tempo, é necessário reconhecer que o discurso acadêmico é contaminado pelo novo paradigma, a nova forma de produzir conhecimento, em que a colagem é vista positivamente, como uma forma de discurso particularmente capaz de enriquecer as ciências sociais e as humanidades de um modo geral.]

Evitando usar cópias xerográficas para a multiplicação de textos literários, em curso superior de letras, foram criados mecanismos para o resgate dos documentos disponibilizados aos estudantes pela Internet. No entanto, em levantamento realizado com tais estudantes, constatou-se que mais de 80% dos ?beneficiados? preferiram xerocar as informações a resgatá-las da Internet (Lontra, 2003).

 

Segundo Ilana Snyder, o texto eletrônico, metáfora de um labirinto em que o arranjo da informação vai se construindo a partir de links, exige do leitor o exercício de capacidades de manipulação e recombinação dos elementos digitais. Isso porque as mudanças pressupõem um leitor mais veloz e com menos tempo para uma leitura em profundidade, e a leitura passa a ser mais extensiva e menos intensiva, afetando a subjetividade e a individuação do leitor:

Consideremos a freqüência com que a leitura mudou no curso da história - a leitura que Lutero fez de Paulo, a leitura que Marx fez de Hegel, a leitura que Mao fez de Marx.(...) o esforço eterno do homem para encontrar significado no mundo e no interior de si mesmo. Se pudéssemos compreender como ele tem lido, poderíamos nos aproximar de um entendimento de como ele compreende a vida; e dessa maneira, da maneira histórica, poderíamos até satisfazer parte da nossa própria ânsia de significado (Darnton, 1992:234).

 

Mas as vantagens são amplas no ensino de literatura, em que é possível explorar essa nova relação de autor-leitor, invertendo-se papéis. Algumas experiências em curso superior [Trabalhos efetivados em Oficina Literária, de que resultaram edições impressa e em CD-Rom.], com a utilização de sons e imagens na construção de narrativas e de poesia já foram feitas com êxito, valendo-se do texto eletrônico. Nesse momento, não podemos ignorar nem fechar os olhos à oportunidade de vivenciar tal revolução nas práticas de leitura.

Por suportes virtuais, compreendem-se as formas de escrita que se apóiam em processos eletrônicos e em linguagens codificadas. Materialmente podem ser gravados em cartonados (cartões perfurados que utilizam um código binário), magnéticos (disquetes) ou plásticos (como os CD-rom e os DVD). Por seu turno, os instrumentos para a escrita se identificam a um teclado, um microfone conectado a um computador (para registro da voz e transcrição por um programa específico) ou um scanner; à impressora para transformação dos textos virtuais em impressos e alto-falantes. São canais que sustentam hoje as possibilidades comunicativas.

O leitor atual lê o texto na tela passando a barra de rolagem, o que tende a dificultar uma visão geral do texto, assim como a localização rápida de partes ou trechos. Um aspecto que distingue a leitura no suporte virtual é que este tende a apresentar dificuldades para se obter uma visão global do conjunto do texto, não só porque o todo é dado a ler por meio de uma tela ou janela, mas também porque sua composição os submete a linkagens, logo, boa parte do texto está oculta, não aparecendo no texto principal ou índex.

O conhecimento do texto como um todo só se realiza de modo sucessivo, a partir do momento em que o navegador clica os textos destacados ao eixo principal; já na tela a percepção é parcial. Devido à composição em links, as páginas de um livro, se digitalizadas, organizam-se diferentemente em um texto eletrônico.

A representação do escrito [Na passagem do texto impresso no papel, para o texto eletrônico em uma tela digital, muda-se o contexto, a composição se altera, a diagramação também, exigindo do leitor outros conhecimentos prévios que no suporte impresso podem ser mais óbvios e próximos do leitor. O caminho inverso, a transposição do texto eletrônico para o texto impresso, também modifica a estrutura. Assim, vê-se que o texto eletrônico tende a modificar a relação do leitor com o texto; este, diante da tela, ?torna-se um dos autores e editores de uma escrita, muitas vezes realizada e construída a várias mãos ou, pelo menos, encontra-se em posição de constituir um texto novo, a partir de fragmentos livremente recortados e reunidos?(Lévy,1995).] modifica também a noção de contexto, substituindo a contigüidade física (posição e distribuição) pelas que governam os bancos de dados [De acordo com Chartier (1988:152), os textos eletrônicos podem ser gravados, arquivados em cópias eletrônicas e protegidos da ação do tempo. Isso com certeza é verdadeiro para grandes arquivos internacionais. Para os usuários comuns, entretanto, ocorre bem o contrário, já que estes utilizam suportes extremamente perecíveis, como o CD-rom, os disquetes e mesmo os discos rígidos. Aspectos técnicos e mecânicos podem destruir facilmente - assim como vírus - esses materiais em que se gravam os textos.], os fichários eletrônicos, os repertórios, as palavras-chaves que tornam possível o acesso às informações. Além disso, o suporte virtual apresenta dificuldades para ser transportado e utilizado em locais outros onde usualmente os textos impressos poderiam ser utilizados [Embora, de acordo com o desenvolvimento tecnológico e a evolução eletrônica, novos visores de tela, menores (do lap-top ao palm-top) e com a nitidez de uma folha em papel, já estejam sendo desenvolvidos para resolver o problema do transporte e da comodidade na leitura. A organização gráfica dos textos da Internet auxilia no acesso e na rapidez da leitura de uma forma específica, através do hipertexto, ou da multimídia interativa. Essa especificidade, porém, vem dar continuidade a um processo já antigo de artificialização da leitura.].

Do início da circulação dos livros-jogos aos e-books, o leitor vem ganhado autonomia e liberdade para ser um agente ativo na construção do conhecimento. O ato da leitura deixou de ser visto como algo necessariamente seqüencial e contínuo, passando a ser um processo descontínuo, não-linear e associativo, tal quais o pensamento e a cognição humana. Um ato que permite ao leitor reunir, associar, coordenar eventos aparentemente desconectados na criação de sentido, no processo do conhecimento [A estrutura deste texto foi pensada analogicamente: as partes são independentes e autônomas, cabendo ao leitor da versão impressa associá-las, à medida de seu interesse em buscar maior detalhamento acerca de aspecto sublinhado no índex, como se houvesse um link na homepage de um site.]. Inegavelmente, as práticas pedagógicas de literatura são bastante afetadas pelo novo suporte da escrita.

Constata-se isso no circuito cultural do poema, que não tem a forma de livro, mas pode ser acessado a qualquer momento. Às vezes o poema não é voluntariamente buscado, chega via e-mail, na voz de um intérprete, com ilustração e acompanhamento e musical pré-estabelecidos, em constituição gráfica dinâmica, na tela, onde letras ou palavras vão surgindo mais ou menos lentamente, em uma leitura já prenhe de interpretação. Aparentemente, tais complementações atraem o leitor para o texto. Na literatura, segundo Caparelli (2003), o interesse atual pelas tecnologias digitais, especialmente aquelas associadas ao hipertexto [Na concepção de Caparelli, o hipertexto é a apresentação da informação na forma de uma rede de nós ou links conectados, em que os leitores são livres de navegar numa forma não-linear, permitindo que autores sejam múltiplos, e que a leitura siga muitos caminhos. ?Nesse momento, ocorre uma hibridação de linguagem, de gêneros, na interface do homem com a máquina, da máquina com a máquina, do produtor com o receptor, tornando tênues as fronteiras entre poeta e o artista visual?.] vem do fato de que, a partir de um tratamento estético dessas tecnologias, a poesia expande-se além do verbal, adquire o estatuto de poéticas virtuais ou digitais. Mas professores de literatura, pouco preparados à atuação num tempo em que as teorias insistem sobre a falácia da leitura passiva, questionam as relações do autor com o leitor na poesia digital.

Seguindo Hall (1992), professores sabem que o leitor tem papel ativo, negocia sentidos ou os subverte, mas se indagam, assim como o faz Johnson (1999): quem é o leitor implícito dos textos virtuais, uma construção ou um substrato apenas empírico? Observam que, quando os experimentos estéticos no âmbito das tecnologias de ponta tendem a se tornar cada vez mais interativos, mais o papel do receptor é desafiado, e o leitor menos passivo, dele dependendo o gesto instaurador, sem o qual não há experiência artística. E isso é positivo.

Maria Angélica Alves (2000) observa, analisando as manifestações culturais da atualidade, que há programas interativos em shows da TV, em filmes, performances e peças teatrais. Percebe que a arte atual exige do espectador uma atitude crítica frente às diversas questões apresentadas e uma postura mais ativa ao intervir no desdobramento do que é visto.

Maria Angélica Alves verifica que há, nas manifestações recentes da arte internacional, uma expressiva tendência à utilização de combinação de variadas formas artísticas numa única obra: ouve-se referências a performances, (vídeo)-instalações, instalações multimídias ou termos equivalentes. A eletrônica define o futuro da arte internacional e revela uma nova consciência da evolução da arte, inserida numa era voltada para a interatividade e a realidade virtual. [Tais iniciativas evidenciam o sucesso dessa nova espécie de narrativa e apresentam uma alternativa, não a única, certamente, de superação de um discurso viciado na descrição de uma insuperável crise da leitura entre crianças e jovens. Certamente, a partir da análise do crescente interesse pelos livros-jogos ou RPG (Rolling Player Game), pelos textos interativos em geral, deverão surgir alguns estudos preciosos, reorientando as sempre vibrantes discussões a respeito dos atos de leitura e do perfil do leitor contemporâneo (ALVES, 2000:38).]

Alves (2000: 34-9) vê que a narrativa dos livros-jogos, ao romper com a estrutura linear das obras convencionais, surpreende com a sua estrutura roteirizada, com base na montagem ou superposição de cenas, só interrompidas pelo atuação do leitor, entre um segmento ou outro, alinhavando a seqüência da aventura e definindo as soluções para o herói.

No livro-jogo ou hiper-romance [Italo Calvino propõe a denominação de ?hiper-romance? (CALVINO, 1990: 134) para os textos de estrutura acumulativa ou modular. A multimídia interativa concretiza essa proposta com os ?hipertextos?, melhor exemplo de ?libertação da tirania da linha? e do poder centralizador do autor: ?No ?sistema? do hipertexto, o leitor e o escritor tornam-se co-aprendizes e co-autores, companheiros de viagem no mapeamento e remapeamento de componentes de texto, muitos dos quais não são oferecidos por quem chamávamos de autor (COOVER, 1992).], a narrativa é descontínua, fragmentada, mas coerente. Precursores dos hipertextos de suporte virtual, os livros interativos, abertos à interpretação do leitor, radicalizam a experiência do diálogo e da co-autoria. O leitor/jogador constrói a narrativa, preenche os silêncios textuais com outras vozes além da ?voz do livro?.

Refletindo sobre essas questões e suas implicações pedagógicas, afirma-se que à escola impõe-se um momento pedagógico de renovação: ?Na era da globalização a educação não pode ser preterida? (Maria Regina M. de Oliveira, 2000). Não se podem ignorar as diferenças sociais em ambientes de ensino, onde se ombreiam mestres e estudantes carentes com aqueles que reconhecem que TIC não se trata mais de uma linguagem do futuro, mas de uma metalinguagem do que existe à qual o cidadão deverá estar adaptado. Logo, o professor não pode ser um mero espectador: deve preparar-se, reconstruir-se, construir maneiras novas de troca de experiência para evoluir e fazer evoluir o outro companheiro da docência para este futuro.

Nesse contexto, o professor deverá ser mediador, instigador, fazendo com que seu aluno-leitor descubra as possibilidades de leitura de um texto e, principalmente, promovendo o encontro do leitor com a obra, para que desse encontro surja o novo aluno-leitor com suas potencialidades decodificadoras ampliadas. E assim, a partir de obras literárias, descubra o prazer estético que só o bom objeto artístico pode lhe proporcionar, independente do suporte.

 

 

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Sites da Internet:

http://ler.literaturas.pro.br ; http://letras.literaturas.org; http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/snyder.html

http://www.cce.ufsc.br/~nupill/texto1.html; http://www.cicv.fr/counal/participantes/levy.html

http://www.eco.ufrj.br/lucianaferreira ; http://www.facom.ufba.br/hipertexto/cultura.html

http://www.fae.ufmg.br; http://www.letras.ufrj.br/abralin/boletim/ boletim21_tema34.html

http://www.levirtualduphilosophe/Pierre  http://www.polibiobraga.com.br/ufrgs.htm

http://www.portoueb.com.br; http://www.unb.br/fac/ncint/site/parte40.htm;

http://www.unicamp.br; http://www.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0102/11.htm

 

 


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