A ESCRITA E A ORALIDADE EM MONTEIRO LOBATO

Dilma Castelo Branco Diniz

Universidade Federal de Minas Gerais

Na história da literatura brasileira, Monteiro Lobato figura entre os escritores que tiveram suas obras mais vendidas entre o grande público. Uma das causas de seu grande sucesso editorial está diretamente ligada ao seu estilo - claro, direto, satírico e, principalmente, vivo - expressão decorrente de sua personalidade. Lobato procura captar a atenção e a simpatia do leitor, através de uma linguagem despojada e cativante, que busca, ao longo do tempo, se aproximar cada vez mais da oralidade.

O humor - outro traço peculiar de sua personalidade - aparece com freqüência em seus textos e lhes dá um sabor todo especial. É que Lobato tem sempre uma visão humorística das coisas, um gosto pela brejeirice burlesca que cause choque em seu leitor/auditor e faça rir. Não se costuma apontar Lobato como humorista, mas, como declarou Cassiano Nunes, na verdade, ele foi um dos "mais genuínos humoristas de nossa literatura"[1].

Desde criança, Lobato revela a sua tendência para o humorismo. Ao escrever para o pai, assina José Bento, ou simplesmente Juca, seu apelido em família, mas para a mãe, sempre inventa uma brincadeira: ora é Juca Burro ou Juca Tigre, ora Juca Bento ou Juca Zebra. Quando não faz rabiscos ininteligíveis ou anuncia um post-scriptum que não escreve[2]. Às vezes chega a ser dramático, como nesta carta dirigida à sua mãe, cujo original se encontra no Acervo/Museu da Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, em São Paulo e que transcrevo na íntegra:

Mamãe

 

Estou muito triste porque a Sra. não me escreve mais e vou me atirar do viaduto.

Não escrevo mais para a senhora.

Hoje recebi cartas de seu Luiz e seu Germano só não recebi da Senhora.

Eu também vou não escrever mais.

Peço-lhe abençoe

Seu filho

J. Bento

 

São Paulo, 5 de janeiro de 96

N.B. Já fiz o testamento.

Nessa época, Lobato tinha treze anos e estava em São Paulo, fazendo os exames para ingressar no "Instituto de Ciências e Letras", onde iria concluir os estudos preparatórios ao Curso Superior. Sua mãe, que adoecera gravemente, tentava curar-se em Santo Antônio do Pinhal, próximo a Campos do Jordão. Saber notícias da mãe seria um desejo natural do menino, mas, dizer-lhe que vai se jogar do viaduto e que já fez até mesmo o testamento revela seu espírito brincalhão e, provavelmente, a intenção de fazê-la sorrir.

Lobato tinha uma personalidade muito firme, mesmo em criança, fato que se pode verificar, por ocasião do episódio da bengala. O menino José Renato Monteiro Lobato demonstrou, na época, uma atitude bastante inusitada. É que seu pai possuía uma bengala belíssima, que o encantava: um unicórnio cor de âmbar, com castão de ouro granulado, gravada com as seguintes iniciais: J.B.M.L. Mas essas iniciais estragavam tudo, pensava o menino Juca, nunca poderei usar essa bengala: "Eu me chamo José Renato; as iniciais são J.B.; esse diabo de B..."[3] E por causa da bengala, resolveu mudar de nome: passou a chamar-se para todos os efeitos José Bento Monteiro Lobato.

Embora as iniciais coincidam - J.B.M.L. - o nome de Monteiro Lobato ficou diferente do de seu pai: José Bento Marcondes Lobato. O nome Monteiro vinha do avô materno - José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé.

O incidente da bengala apresenta-se ainda emblemático. En­quanto símbolo de uma classe social elevada, a bengala pode ser vista como o legado do nome e, ao mesmo tempo, da herança. Um nome próprio que indica o indivíduo nomeado - derivado dos nomes do pai e do avô - mas que será também um nome de autor.

Mas voltemos ao estilo lobatiano.

Representando cenários e personagens de um Brasil rural em extinção, os contos de Lobato pautam-se pela oralidade, que tem, em seus textos, uma função diretamente vinculada ao seu projeto de modernizar o país. E qual seria essa função?

Paul Zumthor nos adverte que "a oralidade é uma abstração, somente a voz é concreta, apenas sua escuta nos faz tocar as coisas"[4]. Por isso, torna-se importante prestar atenção nas vozes inseridas no texto e, de modo privilegiado, na voz do narrador. Por outro lado, Zumthor salienta que, desde que exceda alguns instantes, "a comunicação oral não pode ser monólogo puro: ela requer imperiosamente um interlocutor, mesmo se reduzido a um papel silencioso"[5]. Daí a importância do contacto, dos dons de sociabilidade e de afetividade, do talento de fazer rir ou de emocionar e, até, de um certo pitoresco pessoal.

Não se pode esquecer que o objetivo de Lobato era criar e cultivar um público leitor em âmbito nacional. E para isso, um certo grau de conservadorismo estético tornava-se inevitável.

Monteiro Lobato resgata, em diversos contos, o modo tradicional de narrar, com a figura de um narrador que apresenta as características que foram descritas por Walter Benjamin, no seu célebre artigo ?O Narrador?. [6]

Benjamin afirma que o "senso prático" costuma estar presente em muitos narradores natos e que a verdadeira narrativa tem sempre "uma dimensão utilitária"[7], mesmo que seja de forma latente. Para ele, o narrador é sempre um homem que sabe dar conselhos.

Evitar explicações é outro ponto importante da arte narrativa[8], segundo Benjamin: o relato seco sem explicações deixa o leitor livre, para interpretar a história como quiser. Com isso, o fato narrado ganha força e amplitude e suscita, a cada leitura, surpresa e reflexão. Outro aspecto da narrativa, ressaltado por Benjamin, é o fato de os narradores começarem seu relato com a descrição das circunstâncias em que foram informados dos fatos que vão contar a seguir, a menos que atribuam sua história a uma experiência autobiográfica.
Dessa forma, a narrativa configura-se como uma forma artesanal de comunicação. Mergulhando a história na vida do narrador para depois retirá-la dele, a narrativa adquire os vestígios do narrador, assim como a argila do vaso guarda a marca do oleiro[9]. Por isso, Benjamim declara que "o grande narrador tem sempre suas raízes no povo, principalmente em suas camadas artesanais"[10].

Ora, praticamente todos os contos lobatianos são narrativas populares, em que o caráter pedagógico se encontra diretamente ligado a seu nacionalismo crítico.

Ao empregar, em diversos contos, um narrador com as carac­terísticas salientadas por Benjamin, Monteiro Lobato consegue fazer um apelo à nação, no sentido de despertá-la para a própria realidade, para as condições sociais, econômicas, tecnológicas e políticas terrivelmente primitivas de grande parte de seu território, realidade que a oligarquia não queria enxergar.

Nesse sentido, a própria organização do volume Urupês é su­gestiva. Embora seja conhecido como um livro de contos, Urupês, na verdade, se compõe de duas partes distintas: a primeira, ficcional, constituída pelos doze contos iniciais e a segunda, formada por dois ensaios - "Velha Praga" e "Urupês". Essa composição dual de Urupês torna o projeto ideológico de Monteiro Lobato mais claro e convincente. É que, nos ensaios, como é natural, manifesta-se a presença do autor. E por estarem situados no final do livro, os ensaios podem ser lidos como se fossem um epílogo, em que o autor surge não só como um leitor da realidade brasileira, mas também como um leitor de si mesmo, a elucidar e enfatizar seus próprios escritos.

Ao procurar aproximar-se da língua falada, em seus textos, Lobato acaba atingindo um público maior, porque o estilo também determina, de certa forma, o público leitor. Talvez tenha sido por isso que José Guilherme Merquior afirmou que Lobato era um "publicista", explicando que o "publicista" é o "escritor político", mas também aquele que escreve para o público. E é nesse último sentido que o autor de Urupês se sobressai:

 

Lobato não escrevia para elites intelectuais. Escrevia para o público no duro; e para classes menos pretensamente "escla­recidas" do que (para usar a fórmula mais lúcida de Orígenes Lessa) "esclarecíveis"[11].

Dessa maneira, o povo de condições mais modestas recebeu com agrado a leveza estilística do autor e não demorou muito para que Lobato estivesse, conscientemente, dirigindo sua mensagem a um número crescente de leitores, transformando sua literatura no instrumento de uma ação nova: a ação política.

Convém entretanto salientar que não só nos ensaios, "Velha Praga" e "Urupês", mas na própria estrutura de seus contos, de modo geral, estabelece-se um diálogo entre a linguagem do narrador, uma forma instituída de expressão brasileira elevada e a fala bem próxima do cotidiano, empregada por vários personagens e que contamina a própria fala do narrador, com o emprego de termos e comparações tirados da linguagem popular. Nessa mescla estilística não estaria já, implícita, uma desmistificação? Parece-me que, através da coexistência de diversos níveis lingüísticos, vai sendo abalada a diferença ideologicamente marcada entre erudito e popular.

Mas é, na sua literatura infantil, que Monteiro Lobato assume radicalmente a linguagem coloquial em que a oralidade predomina. Com o Sítio do Picapau Amarelo, cuja história começou a circular a partir de dezembro de 1920, data da publicação de A menina do narizinho arrebitado, Lobato inaugura a literatura infantil brasileira e rompe em definitivo com a impostação modelar de voz que narra às crianças, revelando o gosto moderno pela oralidade, pelo despojamento sintático e pela criação vocabular.

No princípio de 1943, Lobato escreve ao amigo Godogredo Rangel, revelando-lhe que havia aprendido uma lição: ?o certo em literatura é escrever com o mínimo possível de literatura!?[12] e comenta:

a mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me, aproximei-me do certo. [...] Na revisão dos meus livros a saírem na Argentina estou operando curioso trabalho de raspagem - estou tirando tudo quanto é empaste.

O último submetido a tratamento foram as Fábulas. Como o achei pedante e requintado! Dele raspei quase um quilo de ?literatura? e mesmo assim ficou alguma. [13]

Como conclusão, gostaria de citar um estudo de Edith Pimentel Pinto sobre a relação de Lobato com a gramática. Nesse texto, ela lamenta a imagem errônea que ficou de Lobato para a maioria das pessoas: "a de um nacionalista retardatário em matéria de língua"[14]. E afirma que essa preocupação com o português falado no Brasil acompanhou e sustentou, na literatura brasileira, a adoção paulatina do padrão coloquial, em substituição ao padrão literário consagrado. É que, na verdade, o problema era de sócio-lingüística. E completa:

Lobato viveu plenamente a época em que se tentou e se obteve a substituição do padrão literário tradicional por outro, mais preso à realidade lingüística vigente, porém ambos ideais. Disto Lobato foi um dos grandes promotores[15].

Na realidade, os contos de Urupês, Cidades Mortas e Negri­nha, com a introdução da oralidade, com a ausência de artificialismos, do solene e do rebuscado, representaram o ponto de partida dessa mudança do padrão literário brasileiro.

 



[1]NUNES, Cassiano. Mark Twain e Monteiro Lobato: um estudo comparativo. In: A Atualidade de Monteiro Lobato. Brasília: Thesaurus, 1984. p. 23. Considera-se aqui o humor como "a coextensividade do senso e do não-senso, a arte das superfícies e das dobras", segundo Deleuze, que ainda explica: "O não-senso e o sentido acabam com sua relação de oposição dinâmica, para entrar na co-presença de uma gênese estática, como não-senso da superfície e sentido que desliza sobre ela". DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 143.

[2] Cf. CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato, Vida e Obra I. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.p. 43.

[3]Idem. p. 23.

[4]ZUMTHOR, Paul. A Letra e a Voz: a "literatura" medieval. Trad. Amalio Pinheiro e Jerusa P. Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 9.

[5]Idem. p. 222.

[6]BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas. vol. I. São Paulo: Brasiliense, 1985. Pp. 197-221.

[7]Idem. p. 200.

[8]Idem. p. 203.

[9]Idem. p. 205.

[10]Idem. p. 212.

[11]MERQUIOR, José Guilherme. A Lição de Lobato. Jornal do Brasil, 30 de maio de 1982.

[12]LOBATO, J. B. M. A Barca de Gleyre II. Obras Completas XII. São Paulo: Brasiliense, 1950. p.338.

[13]Idem. pp. 339-340.

[14]PINTO, Edith P. As relações de Lobato com a gramática. Suplemento Cultural. O Estado de São Paulo, 9 de julho de 1978.

[15]Idem.

 


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